Significado, valência semântica e sintática de um grupo de verbos de mudança de posse do português do Brasil. Dissertação de mestrado de Leonel Figueiredo de Alencar Araripe. Capítulo 2.

[Páginas preliminares] [Abreviaturas e símbolos] [Sumário] [Capítulo 1] [Capítulo 2] [Capítulo 3] [Capítulo 4] [Capítulo 5] [Capítulo 6] [Capítulo 7] [Referências bibliográficas] [Questionários e tabelas] [Home Page de Leonel] [Deutschsprachige Homepage] [E-Mail] [Feedback]

Capítulo 2

Esboço da pesquisa sobre o léxico nos níveis teórico e descritivo

[Seção 2.1.] [Seção 2.2.] [Seção 2.3.] [Seção 2.4.]

 

2.1. Introdução

O presente capítulo delineia, inicialmente, um panorama não compreensivo da reflexão teórica sobre o léxico e da investigação dos aspectos semânticos e sintáticos de verbos contemporâneas, inclusive na lingüística de língua portuguesa. Finalmente, levantam-se restrições a análises de verbos nesses moldes no domínio do português.

Na seção 2.2. são esboçadas algumas abordagens teóricas recentes sobre o léxico. Na seção 2.3. são inventariadas análises semântico-sintáticas sobre verbos desenvolvidas na Alemanha e se diagnostica tentativamente o estado desse campo de pesquisa no Brasil e em Portugal. A seção 2.4. avalia criticamente, em primeiro lugar, a investigação sobre verbos de mudança de posse do português, que constituem o objeto do presente trabalho. Em seguida, destacam-se nessa seção as limitações de análises lingüísticas de verbos portugueses.

 

2.2. O estudo do léxico: abordagens teóricas

2.2.1. Introdução

No presente trabalho, propomo-nos, como vimos em 1.1., descrever o significado referencial, a valência semântica e sintática de variantes de um grupo de verbos de mudança de posse. A abordagem teórica que subjaz à descrição desses aspectos do léxico é, em grande medida, o modelo de entrada de léxico de valências de HELBIG (1983, 1992). Nesta seção, delineamos não somente a proposta de HELBIG (1983, 1992), mas também algumas outras abordagens do léxico nos últimos anos. O objetivo dessa breve retrospectiva é, em primeiro lugar, evidenciar que os aspectos do léxico levados em conta pelo modelo helbigiano, o qual se fundamenta na gramática de dependência e na teoria da valência, são também contemplados em outras abordagens, inclusive algumas baseadas em teorias gramaticais não dependenciais, ainda que por vezes sob diferentes roupagem terminológica e perspectiva teórica. Em segundo lugar, expõem-se, nesse esboço, posicionamentos que são incorporados ao modelo em que se baseia a presente descrição de verbos.

As subseções de 2.2.2. a 2.2.4. expõem abordagens do léxico baseadas na gramática funcional (PERES, 1984) e na gramática gerativo-transformacional (STEINITZ, 1984; RADFORD, 1988). A subseção 2.2.5. trata, inicialmente, da gramática de dependência e da teoria da valência, com destaque para a noção de valência. Em seguida, esboçam-se algumas das principais abordagens do léxico fundamentadas no conceito de valência. Finalmente, na subseção 2.2.6., com base no quadro teórico esboçado nas subseções de 2.2.2. a 2.2.5., delineamos o modelo subjacente à nossa análise. Os diferentes níveis desse modelo são detalhados no capítulo 5.

2.2.2. O léxico na gramática funcional de PERES (1984)

Na proposta de PERES (1984), a qual, "tomando como base fundamental a Gramática Funcional", pretende-se variante desse modelo (pp.18-20), o léxico registra os 'predicados básicos' (por exemplo, predicados verbais como cantarolar) sob a forma de 'moldes proposicionais', e lhes atribui uma definição de significado. Para DIK (1978:29 apud PERES, 1984:40) [nota 3], em quem se fundamenta PERES (1984), o molde proposicional especifica as seguintes informações sobre o predicado básico:

(i) forma lexical do predicado;

(ii) classe de palavras a que pertence;

(iii) número de argumentos que exige;

(iv) funções semânticas dos argumentos;

(v) restrições de seleção impostas pelo predicado aos seus argumentos.

De acordo com PERES (1984), uma definição de significado constitui uma análise do significado predicacional em termos de 'predicados atômicos' ('predicados mínimos', 'primitivos semânticos'), nos moldes da abordagem da 'análise componencial' (ou 'decomposição lexical').

2.2.3. Conhecimento lexical e entrada lexical segundo STEINITZ (1984)

Segundo STEINITZ (1984:2-3), pelo menos os tipos de conhecimento expostos no Quadro I são ativados quando se compreende uma palavra como o verbo matar.

De acordo com essa autora (p. 61), uma entrada lexical deve registrar apenas informações sobre um item lexical que não se possam predizer a partir de informações de outras fontes. Ao nosso ver, uma informação a é predizível de uma informação b quando subsiste relação de implicação entre b e a (i. e. b ® a ). Nesse caso, é desnecessário registrar a informação a , quando na entrada ou em outro lugar já consta a informação b .

Ilustremos esse ponto. Vamos supor que, numa língua A, subsiste a relação F® CG, em que F simboliza uma função gramatical, e CG, uma categoria gramatical de um complemento. Desse modo, o registro, nas entradas lexicais, das funções dos complementos de um verbo dispensa a informação das respectivas categorias gramaticais. Por exemplo, é suficiente informar que um complemento E1 de um verbo V1 exerce a função SUJEITO, se subsiste a relação (2):

(2) SUJEITO ® SN "se um complemento exerce a função SUJEITO, então esse complemento é representado pela categoria SN"

Agora, seja uma língua B, em que SUJEITO é função ora de SN ora de S, e onde, conseqüentemente, não subsiste a relação de implicação (2). Nesse caso, a entrada deve informar tanto a função quanto a(s) categoria(s) do complemento.

 

 

Quadro I - Tipos de conhecimento lexical ativados pelo verbo matar.

 

(i) sobre o significado, decomponível em componentes parafraseáveis informalmente como "causar que alguém morra"

1. CONHECIMENTOS

(ii) sobre o referente da palavra (matar denota ações)

SEMÂNTICOS

(iii) sobre as condições relativas à combinação da palavra com outras na frase (matar possui 2 argumentos ou participantes)

 

(iv) sobre a caracterização dos argumentos em termos semântico-referenciais (restrições de seleção) e semântico-funcionais (casos semânticos)

2. CONHECIMENTOS

(i) sobre o paradigma flexional e a classe da palavra

SINTÁTICOS

(ii) função e característica de constituintes do ambiente da palavra (i. e. os constituintes que se interpretam semanticamente como argumentos de matar)

 

STEINITZ (1984) discute se há ou não relação de implicação (numa ou noutra direção) entre os seguintes pares de informações:

a. Categoria gramatical e função gramatical

b. Argumento semântico e papel semântico

c. Função gramatical e papel semântico

Essa autora constata duas posições contrárias relativamente a (a), que corresponde ao item 2 (ii) do Quadro I. Segundo ela, para CHOMSKY (1965 apud STEINITZ, 1984:62) [nota 4], as funções gramaticais são definidas em termos de configurações de categorias gramaticais. Por exemplo, 'sujeito' é o SN dominado por S, e 'objeto' é o SN dominado por SV. De acordo com BRESNAN (1980, 1981 apud STEINITZ, 1984:68) [nota 5], porém, as funções gramaticais são termos primários no léxico; as categorias gramaticais, ao contrário, são termos do componente sintático. STEINITZ (1984) inclina-se favoravelmente para a posição de BRESNAN, embora levante algumas restrições a respeito. Esse ponto de vista tem, ao nosso ver, como conseqüência que, numa entrada de matar, é suficiente registrar que os constituintes que correspondem a argumentos desse verbo exercem as funções sintáticas sujeito e objeto direto. Desse modo, a informação de que o sujeito e o objeto se realizam como SN não pertenceria ao léxico, mas ao componente sintático.

Com relação a (b) (em parte correspondente ao item 1(iv) do Quadro I), STEINITZ (1984:70) também constata dois posicionamentos divergentes. De um lado, BRESNAN (1981) prescreve que a entrada lexical atribua a cada argumento um papel semântico. De outro, JACKENDOFF (1982 apud STEINITZ, 1984) [nota 6] e HEIDOLPH (1984 apud STEINITZ, 1984) [nota 7] propõem que os papéis semânticos sejam introduzidos por meio de definições baseadas na estrutura semântica. Nessa abordagem, segundo parece, a entrada lexical não precisa informar sobre os casos semânticos dos argumentos de matar, pois esses casos são depreensíveis da estrutura de predicados que representa o significado desse verbo. De acordo com STEINITZ (1984:70), ainda não é possível determinar qual dos dois posicionamentos é mais adequado.

Relativamente a (c), que diz respeito aos itens 1(iv) e 2 (ii) do Quadro I, STEINITZ (1984:70-71) chega à conclusão de que a relação entre função gramatical e papel semântico não é totalmente regular nem inequívoca, i. e. alguns casos realizam-se preferencialmente como determinadas funções, e certas funções realizam-se preferencialmente como determinados casos. No entanto, não é possível predizer casos a partir de funções nem vice-versa.

Em resumo, uma entrada lexical de matar deve, segundo STEINITZ (1984), especificar, pelo menos, as seguintes informações:

1. significado verbal (sob a forma de uma representação em termos de componentes semânticos)

2. quantidade de argumentos semânticos

3. caso semântico dos argumentos semânticos

4. restrições de seleção

5. função gramatical dos constituintes interpretáveis como argumentos semânticos

2.2.4. O léxico na gramática transformacional de RADFORD (1988)

De acordo com RADFORD (1988), o léxico constitui-se de (a) um conjunto de entradas lexicais que especificam as propriedades idiossincráticas de itens lexicais e (b) regras de redundância lexicais. Num primeiro momento, RADFORD (1988) propõe que as seguintes propriedades devem constar na entrada lexical de verbos:

1. propriedades semânticas dos predicados

2. estatuto categorial

3. moldura de subcategorização

4. grade q

5. restrições de seleção

6. relação entre a grade q e a moldura de subcategorização

Nos moldes dessa abordagem, a entrada de assassinar, não levando em conta as propriedades semânticas, teria a forma seguinte (RADFORD, 1988:379):

(i)

assassinar

 

(ii)

[+V, - N]

 

(iii)

[SN -

SN]

 

|

|

(iv)

AGENTE

TEMA

 

|

|

(v)

<HUMANO>

<HUMANO>

Nessa entrada, o nível (ii) (ou a linha (ii) como prefere RADFORD, 1988) informa, em termos de traços sintáticos, sobre o estatuto categorial do item. O nível (iii) traz a moldura de subcategorização, o que, em termos da gramática de dependência, equivale ao modelo sintático do verbo (i. e. o estatuto sintático dos actantes). O nível (iv) informa sobre os papéis q dos argumentos do predicado verbal e o nível (v) sobre as restrições de seleção. A entrada relaciona as informações do nível (iii) com as informações do nível (iv) e essas últimas com as informações do nível (v).

Num segundo momento, RADFORD (1988) levanta a hipótese de que as informações sobre a subcategorização e as restrições de seleção podem ser eliminadas das entradas, porque essas informações seriam predizíveis de outras, alhures especificadas.

2.2.5. O léxico na teoria da valência

2.2.5.1. Introdução

A presente seção tem como objeto modelos de entrada lexical propostos no âmbito da teoria da valência. Inicialmente, trata-se da teoria da valência e do modelo de gramática em que se enquadra, que é a gramática de dependência. Introduz-se, igualmente, a noção de valência. Em seguida são delineadas abordagens do léxico na teoria da valência.

2.2.5.2. Gramática de dependência e teoria da valência

A obra de Lucien TESNIÈRE constitui o ponto de partida da gramática de dependência (cf. TESNIÈRE, 1988). Trata-se de modelo sintático amplamente difundido na lingüística alemã, tanto descritiva quanto aplicada, que não se tem restringido ao alemão, mas tem sido empregado no estudo de línguas desprovidas de flexão casual como espanhol e francês, em trabalhos publicados, principalmente, na Alemanha. No campo da lingüística aplicada, o modelo é utilizado na lingüística computacional (nas chamadas Gramáticas High Tech - cf. WEBER, 1992:9), na tradução automática (v. Sistema de Tradução de Saarbrücken - SUSY), na lexicografia (v. infra), na lingüística contrastiva (v. projeto de gramáticas contrastivas do Instituto de Língua Alemã de Mannheim - cf. ENGEL, 1985:351), no ensino do alemão como língua materna e língua estrangeira (a maior parte das gramáticas pedagógicas e dos livros didáticos para o ensino do alemão fundamentam-se na gramática de dependência) [nota 8]. Integra a gramática de dependência a teoria da valência, que tem como objeto a valência, como tipo particular de relação de dependência (TARVAINEN, 1981; TESNIÈRE, 1988; ENGEL, 1988, 1994). Entre outras tarefas, cabe à teoria da valência definir a noção de valência, situá-la, mostrando as interrelações existentes, relativamente aos componentes da gramática e às diversas dimensões da linguagem, e elaborar modelos para descrições lexicais e dicionários de valências (cf. WELKE, 1988; BUßMANN, 1990 e HELBIG, 1992).

O termo valência designa, ao mesmo tempo, (a) uma relação entre um elemento P (denominado portador de valência) e um conjunto de n elementos w, (b) o conjunto de n elementos w que se relacionam por valência com P, (c) o número de elementos w ou, ainda, (d) cada elemento w. A relação de valência subsiste nos diferentes níveis de análise lingüística. Há, desse modo, pelo menos, uma valência lógica ou lógico-semântica, uma valência semântica e uma valência sintática [nota 9]. Nas definições abaixo, limitamo-nos, inicialmente, à noção de valência enquanto relação, mas uma interpretação dos diferentes tipos de valência como conjuntos de elementos também é possível, como veremos. Do mesmo modo, veremos quando é possível uma interpretação da valência na acepção (c) (como uma determinada quantidade de elementos) ou (d) (como designação para os elementos individuais que constituem a valência na acepção (c)).

A valência lógica ou lógico-semântica é a relação entre uma estrutura de predicados elementares EC e os argumentos dessa estrutura que correspondem a variáveis para indivíduos (x, y, z etc.), por oposição aos argumentos que correspondem a predicados (v. subseção 5.1.5.). É, ao mesmo tempo, a relação entre um predicado complexo subjacente a uma unidade lexical, analisado como uma EC, e variáveis para indivíduos.

A valência semântica se desdobra nos seguintes aspectos: (i) relação entre um predicado (ou EC) e os casos semânticos de argumentos desse predicado (ou da EC correspondente); (ii) relação entre um verbo e os componentes semânticos dos constituintes verbo-dependentes que realizam argumentos do predicado subjacente a esse verbo.

O termo valência semântico-funcional designa o aspecto (i) da valência semântica, enquanto o termo valência semântico-referencial denomina o aspecto (ii) da mesma valência.

A valência sintática é a relação entre um verbo e as funções sintáticas dos constituintes verbo-dependentes que realizam argumentos do predicado subjacente a esse verbo. Essa valência é também denominada valência sintático-funcional.

Vejamos agora em que consistem esses diferentes tipos de valência enquanto conjuntos de elementos. A valência lógica é o conjunto de argumentos expressos por variáveis para indivíduos da EC que representa o significado de um verbo. É também o número de elementos desse conjunto. A valência semântica (i) constitui uma moldura casual ou modelo frásico semântico, i. e. uma lista dos casos semânticos de argumentos do verbo.

A valência semântica (ii) são funções boolianas constituídas de componentes semânticos, as quais expressam as subclasses semânticas dos elementos que podem realizar os argumentos.

A valência sintática constitui uma ou várias molduras sintáticas (um ou vários modelos frasais sintáticos), i. e. uma ou várias listas de funções sintáticas. Designa também a quantidade de elementos de uma dessas molduras ou qualquer um desses elementos.

Numa entrada de léxico de valências, os diferentes tipos de valência são correlacionados uns com outros, como veremos no capítulo 5. O Nível I informa sobre a valência lógica, ao representar o significado referencial como uma EC com n variáveis para indivíduos. O Nível II informa sobre a valência semântico-funcional, atribuindo casos semânticos às variáveis do Nível I. O Nível III caracteriza a valência semântico-referencial em termos de funções boolianas que expressam as subclasses semânticas de constituintes verbo-dependentes que realizam os elementos do Nível II. O Nível IV caracteriza a valência sintático-funcional em termos de grafos com elementos do tipo (v, (K, F)), em que v é uma variável da EC, K é um caso semântico, e F uma função sintática.

2.2.5.3. Modelos de entrada de valências

Esta seção trata de algumas das principais propostas de descrição da valência no âmbito do léxico. A primeira subseção delineia alguns modelos que tomam como ponto de partida a valência sintática. Trata-se dos modelos 'sintaticocêntricos' (cf. HELBIG, 1992). A segunda subseção trata de modelos semanticocêntricos, i. e. que partem da estrutura semântica na descrição das unidades lexicais.

2.2.5.3.1. Modelos sintaticocêntricos

O primeiro dicionário de valências deve-se aos pesquisadores da Universidade de Leipzig Gerhard HELBIG e W. SCHENKEL. Trata-se do Dicionário de valências e distribuição de verbos alemães, publicado pela primeira vez em 1969 e em oitava edição em 1991 (HELBIG/SCHENKEL, 1991), elaborado, sob uma perspectiva sintaticocêntrica, a partir do que parece constituir o primeiro modelo para trabalho dessa natureza [nota 10]. Nesse modelo, que visa a prover um 'mecanismo' capaz de produzir todas e somente as frases gramaticais da língua, as informações sobre cada unidade são distribuídas em três níveis, a saber:

Nível 1--> quantidade de actantes (complementos) obrigatórios e facultativos

Nível 2--> ambiente sintático (estatuto formal dos actantes)

Nível 3--> ambiente semântico (traços semânticos dos actantes)

Nesses moldes elaboraram-se, nos anos seguintes, dicionários de valências de substantivos e adjetivos, dicionários de valências verbais de várias línguas e dicionários de valências contrastivos.

A esse modelo introduzem-se, posteriormente, informações sobre os casos semânticos (por exemplo em KADE, 1979 apud HELBIG, 1992:170) [nota 11], mas se mantém a valência sintática (Nível 1 supra) como ponto de partida. Do mesmo modo, ENGEL (1988) descreve a valência sintática, as restrições de seleção e os casos semânticos de verbos alemães, mas a partir da estrutura sintática.

2.2.5.3.2. Modelos semanticocêntricos

A presente seção trata do modelo modular-integrativo [nota 12] de Gerhard HELBIG e do modelo de actancialização de Barbara e Gerd WOTJAK. Trata-se de modelos que tomam a estrutura semântica (i. e. o significado e/ou a valência lógico-semântica) como ponto de partida da descrição da valência verbal, ao contrário dos modelos da seção 2.2.5.3.1., que partem da valência sintática.

2.2.5.3.2.1. Aspectos gerais sobre o modelo modular-integrativo (MI)

Os modelos de entrada de dicionário de valências das décadas de 60 e 70 tomam como ponto de partida a valência sintática. Em 1983, HELBIG propõe uma reorientação na descrição da valência, colocando a valência lógico-semântica como ponto de partida. Em 1992, HELBIG propõe que o primeiro nível (que denomina Nível 0) de uma entrada de léxico de valências deve decompor o significado da unidade lexical em predicados elementares.

Nessa abordagem, que denominamos modelo modular-integrativo da valência, além das informações da abordagem de 1969 e da indicação dos casos semânticos, são incorporadas informações sobre a estrutura lógica dos predicados complexos correspondentes à unidade verbal e sobre os traços semânticos inerentes dos verbos (cf. HELBIG 1983a, 1983b, 1992).

O modelo modular-integrativo subjaz a abordagens descritivas da sintaxe e semântica de vários grupos de verbos individuais (denominados campos verbais (Verbfelder), organizados em torno de propriedades semânticas comuns), levadas a efeito por pesquisadores da Universidade de Leipzig. A essa reorientação fundamental na lexicografia de valências adere o dicionário Verbos em Campos, organizado por SCHUMACHER (1986 apud HELBIG, 1992) [nota 13], que, igualmente, toma a estrutura semântica como ponto de partida. No entanto, esse trabalho não contempla os casos semânticos. Também WOTJAK (1984), como veremos, adota uma perspectiva semanticocêntrica.

2.2.5.3.2.2. Fundamentos teóricos e limitações do modelo MI

Por que levar em conta numa descrição da valência os aspectos referidos? Por que descrever a valência a partir de uma perspectiva semântica, invertendo o caminho percorrido em HELBIG/SCHENKEL (1969) e trabalhos subseqüentes? A presente subseção apresenta, inicialmente, as respostas de HELBIG a essas perguntas. Em seguida, delineia-se o quadro teórico do modelo modular-integrativo. Finalmente, explicitam-se as limitações do modelo.

A noção de valência abrange, parcialmente, as relações de compatibilidade entre as unidades lexicais (HELBIG, 1992:8). Uma descrição da valência deve, portanto, explicar uma parte substancial da combinabilidade lexical. De acordo com HELBIG (1983a:137,1992:153), é quase consensual, entre os lingüistas, o parecer de que essa explicação não pode basear-se exclusivamente nem na valência sintática nem na valência semântica. A valência sintática regula a combinação de formas da língua, e a valência semântica, a combinação de conteúdos de formas.

As frases seguintes parecem corroborar esse ponto de vista:

(3)

(a)

* [Pedro] doou [os pobres] [com dinheiro].

 

(b)

[Pedro] doou [o brinquedo] [com pesar].

(4)

(a)

* [A pedra] presenteou [a frase] [com a química].

 

(b)

[O ancião] presenteou [o menino] [com a bicicleta].

As frases (3a) e (4a) obedecem à valência sintática dos verbos doar e presentear, como se comprova pelo confronto com as frases (3b) e (4b). A anomalia das primeiras parece decorrer de uma combinação de fatores semânticos e sintáticos. Por exemplo, os constituintes [os pobres] e [com dinheiro] de (3a) não são realizações adequadas dos casos semânticos DESTINATÁRIO e PACIENTE, respectivamente. O constituinte [os pobres] talvez possa ser interpretado como realização de PACIENTE, uma vez que é um complemento direto, e substantivos da subclasse definida por <hum> parecem poder realizar essa função semântica, como em (5):

(5) A favelada doou os seus dois filhos a um casal israelense.

O constituinte [com dinheiro], porém, não se encaixa na frase como dependente do verbo, porque dinheiro não pertence à subclasse semântica de substantivos {alegria, pesar, satisfação, ....}(cf. 'Pedro doou os pobres com pesar').

Para HELBIG (1983a), a explicação das relações de compatibilidade que integram o domínio da valência pressupõe uma integração de informações descritas pelos modelos da análise componencial, da valência sintática e da valência semântica. HELBIG (1983a) propõe essa integração num modelo de entrada em que essas diferentes informações se distribuem em níveis diferentes.

O modelo modular-integrativo como que vira de ponta-cabeça a entrada de HELBIG/SCHENKEL (1969). Com efeito, a informação sobre a valência sintática passa a ocupar os últimos níveis da entrada. Os primeiros são ocupados por informações sobre o significado e a valência lógico-semântica. Os níveis intermediários tratam da valência semântica. Essa inversão é justificada por HELBIG (1983a:138) nos seguintes termos:

Esse caminho da semântica para a sintaxe (e a "actancialização" dos argumentos relacionada a isso) corresponde a um desenvolvimento histórico-científico e a uma "inversão" da perspectiva também em outras áreas da gramática [nota 14].

HELBIG (1983a:142) ressalta, igualmente, que a perspectiva semanticocêntrica pode, também, constituir a base para dicionários de valência comparativos de várias línguas.

O outro motivo para a perspectiva semanticocêntrica é que a valência sintática é 'pré-determinada' pela estrutura semântica (HELBIG, 1992:156). HELBIG (1992) utiliza o termo pré-determinação porque a estrutura semântica fixa apenas o limite máximo de actantes de uma unidade verbal, i. e. a valência sintática enquanto número máximo de actantes (Wertigkeit) pode igualar mas não exceder a valência lógica enquanto número de argumentos (Stelligkeit). Seja W o número máximo de actantes e S o número de argumentos. Subsiste, então, para HELBIG (1992), a seguinte relação: W £ S.

De acordo com HELBIG (1992), a valência sintática, conquanto limitada dessa forma pela estrutura semântica, não é um decalque da mesma, i. e. não se podem depreender todos os aspectos da valência sintática a partir do significado, da valência lógica ou da valência semântica. Desse modo, a entrada lexical deve registrar esses diferentes aspectos e relacioná-los uns aos outros. Esse posicionamento decorre da concepção de gramática subjacente ao modelo modular-integrativo, como veremos a seguir.

O modelo de HELBIG repousa sobre determinados pressupostos relativamente à gramática, ao papel do léxico, à valência e à relação entre teoria lingüística e prática lexicográfica (cf. HELBIG, 1992). Na concepção partilhada por HELBIG (1992), a gramática, como mecanismo de correspondência entre as estruturas semântica e morfossintática, constitui-se de módulos, dotados de relativa autonomia, cujas informações se integram no módulo lexical. Nessa concepção, a valência pertence ao léxico, de que é a propriedade central, e não à gramática stricto sensu. Para HELBIG, à elaboração de um dicionário de valências deve preceder uma descrição do léxico. Entre uma e outra deve haver uma relação de adaptação. O ponto de partida de sua abordagem é o confronto entre léxico e dicionário realizado por LANG (1983 apud HELBIG, 1992:151) [nota 15], que sintetizamos no Quadro II:

Quadro II - Distinção entre léxico e dicionário.

LÉXICO

DICIONÁRIO

constitui componente da gramática

pressupõe oposição entre gramática e dicionário

primazia do aspecto 'integração de informações'

primazia do aspecto 'inventário de elementos'

relaciona-se à competência lingüística

relaciona-se à comunicação lingüística

obra de consulta de lingüistas

obra de consulta de falantes comuns

faz distinção entre língua-objeto e metalíngua

identifica língua-objeto e metalíngua

explicita e subordina a entrada lexical a um modelo

mantém implícita e subordina a entrada ao usuário

tende à máxima particularidade possível

tende à máxima abrangência possível

aspira à verticalidade

aspira à horizontalidade

O modelo de entrada lexical de HELBIG (1983, 1992), que, segundo o autor, deve fundamentar a descrição lexicográfica de verbos, restringe-se ao significado e à valência das unidades lexicais. Trata-se de um modelo para entrada de 'léxico de valências'. Outros aspectos do léxico não são levados em conta (cf. STEINITZ, 1984).

Outra limitação da descrição do significado e da valência nos moldes da abordagem de HELBIG (1983, 1992) é que são levados em conta apenas os aspectos semânticos e sintáticos. Em seu modelo de entrada lexical, HELBIG (1983, 1992) deixa de lado, propositadamente, os aspectos estilísticos e pragmáticos da descrição de verbos. HELBIG (1991:60-61) reconhece, porém, que a valência não se restringe aos aspectos sintáticos e semânticos, mas possui, também, uma dimensão comunicativo-pragmática. Desse modo, HELBIG (1991:60) vislumbra um modelo da valência de vários níveis que incorporem todos esses aspectos. Ele ressalta, porém, que esses diversos níveis não devem ser nem dependentes nem independentes, mas interdependentes.

Em resumo, o modelo de HELBIG (1992) prescreve a integração, na entrada lexical, de informações sobre os componentes semânticos, a valência semântica e sintática de verbos de modo a explicar uma parte significativa da combinabilidade lexical. A descrição deve tomar como ponto de partida não a valência sintática, como em modelos precedentes, mas o significado e a valência lógico-semântica. Essa perspectiva da semântica para a sintaxe, que não se tem limitado ao âmbito do léxico, sobre refletir um desenvolvimento histórico-científico, é necessária na descrição da valência, porque, em conformidade com o modelo de gramática subjacente à abordagem de HELBIG (1992), a estrutura semântica, conquanto não determine completamente a valência sintática, a 'pré-determina'. A gramática, para HELBIG (1992), é um mecanismo de correspondência entre as estruturas semântica e morfossintática, mecanismo esse constituído de módulos relativamente autônomos. O léxico, ao qual pertence a valência, é a instância de integração das informações desses módulos. O modelo de HELBIG (1992) é voltado para uma descrição do significado e da valência semântica e sintática de unidades lexicais, que são aspectos centrais do léxico, mas não o esgotam. A confecção de um dicionário deve partir de uma descrição do léxico.

2.2.5.3.2.3. O conteúdo dos níveis do modelo MI nas versões de 1983 e 1992

O modelo modular-integrativo comporta, ao que sabemos, duas versões. Inicialmente, HELBIG propõe uma versão do modelo que comporta 6 níveis (HELBIG, 1983a, 1983b). Como vimos acima, em 1992 esse teórico da valência propõe mais um nível para o modelo, o qual informa sobre a estrutura de predicados elementares de que se constitui o predicado complexo correspondente à unidade verbal. Esse nível é, segundo HELBIG (1992), indispensável em uma descrição do léxico. Num dicionário de valências, contudo, pode-se prescindir de uma decomposição do predicado verbal em predicados elementares. Outras adaptações são permissíveis, de modo a adequar a descrição para um público-alvo leigo.

Vejamos o que informam os diferentes níveis do modelo de HELBIG (1983a) e o nível adicional, proposto em HELBIG (1992). No Nível 1, informa-se sobre "a estrutura lógica dos predicados (...) que correspondem às unidades verbais, em termos do número de argumentos do predicado" (HELBIG, 1983a:137). De acordo com HELBIG (1983a), o ponto de partida desse nível, que corresponde ao que por vezes se denomina valência lógica, é constituído pelos predicados lexicalizados ou complexos (cf. p. 138). Ele não contempla, desse modo, nessa proposta, uma decomposição em predicados semânticos simples, tal como é realizada pela análise componencial. O motivo alegado é que uma decomposição nesses moldes não é adequada para entradas de dicionário, pelo menos no estado da lexicografia da época.

O Quadro III ilustra, com exemplos do português, o tipo de informação do Nível 1 do modelo, conforme a abordagem de HELBIG (1983a):

Quadro III - Número de argumentos e estrutura lógica de alguns predicados.

PREDICADO LEXICALIZADO [nota 16]

NÚMERO DE ARGUMENTOS

ESTRUTURA LÓGICA

assemelhar-se

3

a R b c

desabituar

3

a R b c

matar

2

a R b

dormir

1

a R

(R = relator; a, b, c .... = argumentos)

Segundo HELBIG (1983a), o Nível 2 informa sobre os traços semânticos inerentes dos verbos, e os classifica conforme a sua relevância para a valência. Esse nível pressupõe, de acordo com o autor, um sistema de traços adequado para todos os verbos, o que, segundo ele, ainda não existe. O que há, para esse autor, são inventários parciais que são objeto de bastante controvérsia.

Sobre esses traços, HELBIG (1983a:140) observa que se trata de uma

análise semântica de traços dentro da tradição das tentativas de descrever o significado de um número infinito de palavras por meio da combinação de traços semânticos de um vocabulário finito [nota 17].

 

Para HELBIG (1983a:140), uma análise dos verbos em termos de traços inerentes permite

pôr em perspectiva, no âmbito da lexicografia, relações semânticas como por exemplo a semelhança ou diferença de significado, a sinonímia, a antonímia, a hiponímia ou co-hiponímia [nota 18].

HELBIG (1983a) identifica a distinção entre 'traços relevantes para a valência' e 'traços não relevantes para a valência' com a distinção de BONDZIO (1971) entre 'funtores' e 'modificadores'.

O Nível 3 traz os casos semânticos dos verbos, os quais caracterizam os argumentos do predicado em termos dos papéis semânticos que desempenham. Essa informação constitui a base dos modelos frasais semânticos. Dentre as diferentes concepções de caso, HELBIG (1983a:141) prefere, por mais adequada, a concepção de caso como

função, feixe (Bündelung), abstração, sintatificação de argumentos da estrutura semântica (...), 'ponto de costura' (Nahtstelle), no qual e pelo qual as unidades da estrutura semântica (argumentos) e as unidades da estrutura sintática (constituintes frásicos, actantes) são interligadas [nota 19].

De acordo com HELBIG (1983a), os casos decorrem, indiretamente, das propriedades semânticas dos verbos, mas as relações entre estas e aqueles não estão ainda de todo esclarecidas. No entanto, determinadas regularidades podem ser constatadas nessa relação, como, por exemplo, o fato de que verbos estativos, i. e. verbos com o traço [+estático], e processuais, ou seja, verbos caracterizados pelos traços [- estático] e [- atividade] (HELBIG, 1983a:139), não admitem os casos AGENTE e INSTRUMENTAL.

É em face dessas considerações que HELBIG (1983a) coloca, em seu modelo de entrada, as informações sobre casos semânticos depois das informações sobre os traços semânticos inerentes dos verbos. No entanto, HELBIG chama a atenção para o fato de que o Nível 3 interliga os Níveis 1 e 2. De fato, o Nível 3 caracteriza semântico-funcionalmente os argumentos, e o faz, pelo menos em parte, com base nas propriedades semântico-categoriais do Nível 2.

O Nível 4 realiza uma caracterização semântico-referencial dos argumentos dos verbos em termos de traços como os do Nível 3 do modelo de entrada de HELBIG/SCHENKEL (1969). De acordo com HELBIG (1983a), esses traços, que funcionam como restrições semânticas sobre os argumentos, são inerentes aos substantivos, mas, na frase, passam a depender, igualmente, dos traços inerentes dos verbos. Segundo HELBIG, pode-se tomar o inventário descritivo do Nível 3 de HELBIG/SCHENKEL (1969) como ponto de partida. É necessário, porém, subdividir as categorias desse inventário.

No Nível 5 procede-se a uma caracterização qualitativa dos actantes [nota 20] em termos (a) da função sintática (Satzgliedschaft) que desempenham e (b) da representação morfológica. Esse segundo aspecto corresponde ao Nível 2 de HELBIG/SCHENKEL (1969), e vale-se do mesmo inventário descritivo. O Nível V é o fundamento dos modelos frasais sintáticos. Um mesmo argumento de um verbo pode realizar-se como actantes que exercem diferentes funções sintáticas e assumem diferentes representações morfológicas. O Nível V do modelo dá conta desse fato relacionando as diferentes molduras sintáticas em que se realizam os argumentos do verbo.

No Nível 6, caracterizam-se quantitativamente os actantes (i.e. indica-se a 'valência sintática quantitativa' (Wertigkeit) do verbo) e se distingue entre actantes obrigatórios e facultativos. HELBIG (1983a) utiliza, nesse nível, a notação de HELBIG/SCHENKEL (1969 (1991)), que se vale de índices subscritos. Por exemplo, no caso de limpar (räumen), o Nível 6 tem o aspecto seguinte, de acordo com HELBIG (1983a:142):

VI. limpar2 + (1) = 3 ou limpar3

À esquerda do sinal "=" e/ou logo depois do verbo, o número subscrito não parentetizado indica a quantidade de actantes obrigatórios. Na primeira posição, entre parênteses, o número representa a quantidade de actantes facultativos. À direita de "=", o número significa a quantidade total de actantes do verbo. O verbo limpar (räumen) possui, segundo a entrada, duas valências sintáticas quantitativas, conforme o tipo de actancialização.

Os diferentes tipos de actancialização são indicados pelo Nível 5, Subnível (a), da entrada (HELBIG, 1983a:142):

V. a) a ® sujeito

b ® (advérbio) [nota 21]

c ® objeto

d ® (advérbio)

ou

a ® sujeito

b ® objeto

c ® advérbio

d ® (advérbio)

ou ...

Na primeira possibilidade de actancialização, os argumentos b e d realizam-se como actantes facultativos que exercem as funções sintáticas de 'advérbio'. Na segunda possibilidade, em que b se realiza como objeto e c como 'advérbio', os actantes que exercem essas funções sintáticas são obrigatórios. As frases (6) e (7) ilustram um e outro tipo de actancialização (os constituintes facultativos estão entre parênteses):

(6) [a Pedro] limpou (d com uma vassoura) [c o quarto] (b de todo o papel picado).

(7) [a Pedro] limpou [b as folhas] [c do jardim] (d com uma vassoura).

De acordo com HELBIG (1983a:138), os Níveis de 1 a 4 referem-se à 'estrutura do conteúdo semântico-proposicional', ao passo que os Níveis 5 e 6 dizem respeito à 'estrutura da expressão gramático-formal', recobrindo área antes abrangida pela noção de 'valência sintática'.

Segundo HELBIG (1983a), os Níveis 2 e 4 correspondem à área recoberta pela análise componencial. Os Níveis 1, 3 e 4 correspondem, de acordo com HELBIG (1983a), ao domínio da valência semântica (v. infra as diferentes acepções do termo). Na literatura, o Nível 1 é também designado por valência lógica.

Para HELBIG (1983a), a distinção entre um 'componente lógico', que constitui o Nível 1, e os Níveis 2 e 3 de um 'componente semântico' é necessária num modelo de entrada lexical, porque não existe uma relação biunívoca entre eles, em que pesem determinadas regularidades nessa correspondência. O número de argumentos é, para HELBIG (1983a), independente das propriedades semânticas dos mesmos.

A propósito do termo valência semântica, HELBIG (1983a:138) ressalta que ele designa, na literatura, fenômenos diferentes:

(a) característica semântico-referencial dos argumentos de um predicado não lexicalizado da estrutura semântica (...);

(b) característica semântico-funcional dos participantes de um predicado lexicalizado em termos de casos semânticos (...);

(c) característica semântico-referencial dos actantes (...).

Nos Níveis 1 e 6, HELBIG (1983a) distingue, respectivamente, entre 'argumentos' (de um predicado), os quais pertencem ao plano lógico, e 'actantes' ( = complementos) de um verbo, que pertencem ao plano sintático. Não há, segundo ele, uma relação direta, mas apenas uma correlação entre o número de argumentos (i.e. a quantidade de lugares vazios lógicos para argumentos (logische Stelligkeit)) de um predicado e a quantidade de actantes do verbo que o expressa, denominada valência sintática (Wertigkeit). Segundo HELBIG, pode haver discrepância entre o número de argumentos e o número de actantes, como veremos em seguida, pois esse último não é necessariamente igual ao primeiro, podendo lhe ser inferior.

Os casos semânticos, objeto do Nível 3, constituem, para HELBIG (1983a), funções dos argumentos do predicado lexicalizado. Os actantes, de acordo com HELBIG (1983a:141), apenas representam os casos semânticos no plano da sintaxe. Segundo HELBIG, não há uma correspondência direta entre casos semânticos e actantes, porque determinados casos podem ou devem permanecer implícitos, como, por exemplo, nos verbos mergulhar (tauchen) e martelar (hämmern).

A frase (8) evidencia que o caso ALVO de mergulhar pode não se realizar, e a frase (9a), que INSTRUMENTAL de martelar não deve realizar-se, a não ser que o SN do constituinte SP com, que realiza esse caso, comporte um especificação, por exemplo sob a forma de um demonstrativo (9b) ou sob a forma de um modificador (9c):

(8)

(a)

Carla mergulhou.

(9)

(a)

* Pedro martelou o prego [SP com [SN um martelo]].

 

(b)

Pedro martelou o prego [SP com [aquele martelo]].

 

(c)

Pedro martelou o prego [SP com [SN um martelo fabricado em Taiwan]].

Desse modo, a impossibilidade de explicitar (por meio de um actante) um caso semântico de um verbo redunda numa discrepância entre o número de argumentos do predicado lexicalizado (dos quais os casos são funções) e o número de actantes do verbo correspondente. É por isso que HELBIG (1983a) afirma não existir uma correspondência do tipo 1:1 entre a quantidade de argumento e a quantidade de actantes (cf. HELBIG, 1992:166) [nota 22].

HELBIG (1983a) ilustra o modelo de entrada de 6 níveis com entradas lexicais de morar (wohnen) e limpar (räumen). Traduzimos, a seguir, a primeira entrada:

morar (Ele mora em Leipzig / na estação ferroviária)

I. a R b Número de lugares vazios lógicos: 2

II. a) traços do predicado relevantes para a valência: " + estático", "+ relação", - simétrico", "externo", "+ lugar"

b) traços do predicado não relevantes para a valência: " - posição", " + casa", "+ continuamente" ...

III. Casos semânticos

a ® Paciente

b ® Locativo

IV. Traços semânticos dos substantivos

a ® " + hum"

b ® " + concreto", " - orgânico", "sólido"; "lugar", "prédio" ...

V. a) a ® sujeito

b ® advérbio

b) a ® substantivo

b ® substantivo preposicionado

VI. morar2

Façamos um resumo. O modelo modular-integrativo prescreve uma descrição de verbos em 7 níveis que informam sobre a estrutura de predicados elementares em que se decompõe o predicado complexo correspondente à unidade verbal, o número de argumentos desse último, os traços semânticos inerentes dos verbos, os casos semânticos, as restrições de seleção, as funções e categorias sintáticas dos actantes, o número de actantes obrigatórios e facultativos. Em que pesem regularidades na correspondência entre esses diversos aspectos, não se pode decalcar uns dos outros, o que leva a contemplá-los com níveis próprios na entrada. Os actantes são realizações de argumentos da estrutura lógica (Nível I). Como pode haver eventualmente bloqueio na realização de actantes, o número desses elementos é igual ou inferior ao número de argumentos. Um verbo pode possuir mais de uma possibilidade de actancialização de argumentos, i. e. um mesmo argumento pode assumir representações morfossintáticas diferentes. O Nível V arrola as diferentes molduras sintáticas em que se actancializam os argumentos.

2.2.5.3.2.4. O modelo de actancialização

Outra abordagem recente sobre a valência que releva à descrição do léxico, abordagem essa que se desenvolveu, ao que parece, paralelamente ao modelo de 7 níveis de HELBIG, é o 'modelo de actancialização', desenvolvido pelos pesquisadores alemães Barbara WOTJAK e Gerd WOTJAK (cf. WOTJAK, 1982; WOTJAK, 1984; WELKE, 1988:53-57). Nesse modelo, atribui-se aos verbos de um determinado campo semântico uma 'fórmula arquissêmica' (FA), que estabelece o número máximo de argumentos determinados pelos verbos do campo. Essa fórmula é uma estrutura de predicados elementares que define um campo semântico, expressando os aspectos comuns dos significados dos verbos do campo.

Por exemplo, segundo WOTJAK (1984:410), ao campo de verbos de deslocamento em alemão subjaz a seguinte fórmula arquissêmica:

ti (X ADESSE LOC1) Ù (X OPER Y) Ù X CAUS (ti+k (X ADESSE LOC2) Ù (ti+l (X ADESSE LOC3)))

que se parafraseia da seguinte forma, segundo WOTJAK (1984:410):

Num instante ti encontra-se (ADESSE) um argumento X num lugar LOC1 e X manipula (OPER) Y e causa (CAUS) que X se encontre num segundo instante posterior ti+k no lugar LOC2 e num terceiro instante posterior ti+l no lugar LOC3

De acordo com o modelo de actancialização, os argumentos da FA devem ser caracterizados, primeiramente, em termos dos casos semânticos que desempenham. Em seguida, o modelo prescreve a descrição das restrições de seleção e das possibilidades de realização morfossintática dos argumentos, com a indicação do eventual bloqueio dessa atualização, quando o argumento não pode ser atualizado. Trata-se de fenômeno distinto da valência facultativa, em que um argumento pode ser atualizado (v. seção 5.4.). Por exemplo, nos moldes da abordagem de WOTJAK (1984:412), o verbo de deslocamento viajar possui, entre outras, as seguintes actancializações possíveis e bloqueadas (cf. WELKE, 1988:56):

Quadro IV - Exemplos de actancializações possíveis e bloqueadas de viajar conforme a abordagem de WOTJAK (1984:412).

realização morfossintática dos argumentos

realizações possíveis e realizações bloqueadas (assinaladas por *)

Sn-Vf-p1S

Ele viajou de trem/de navio

Sn-Vf-p2S

* Ele viajou de Recife

Sn-Vf-p2S-p4S

Ele viajou de Recife para Maceió

Sn-Vf-p1S-p2S

* Ele viajou de carro de Recife [nota 23]

(Sn = substantivo no nominativo, Vf = forma verbal, pnS = substantivo com a preposição n)

Para WOTJAK (1984:401, nota 2), a descrição do significado de lexemas não se resume na FA. Num segundo nível de análise, deve-se proceder a uma descrição mais detalhada, com a informação, entre outros aspectos, de 'semas modificadores' (Modifikatorseme). Esses aspectos, segundo nos parece, se referem às particularidades dos significados dos lexemas individuais de um campo semântico.

O modelo de WOTJAK/WOTJAK é quase idêntico ao de HELBIG (1992). Chamemos atenção para os pontos em comum. A estrutura semântica, que encabeça a entrada, pré-determina a valência sintática em um e outro modelo, i. e. o número de actantes é igual ou inferior ao de argumentos (devido a bloqueio na realização). Os argumentos são caracterizados em termos de casos semânticos e os actantes em termos morfossintáticos. Indicam-se igualmente as restrições de seleção. Finalmente, o significado verbal não é descrito em apenas um nível, como nas abordagens de KATZ/FODOR (1963), BIERWISCH (1969), KATZ (1972) e outras, mas em mais de um nível. No modelo de HELBIG (1992), essa descrição constitui o objeto dos Níveis 0, I e II, enquanto na proposta de WOTJAK (1984) se desdobra na FA, por um lado, e numa análise em termos de semas modificadores e de outros aspectos do significado, por outro.

A diferença fundamental entre um e outro modelo é que WOTJAK/WOTJAK prescrevem uma caracterização dos actantes em termos de categorias sintáticas, e não em termos de categorias e funções sintáticas como HELBIG (1992).

2.2.6. Um modelo simplificado para descrição da valência

Nesta seção extraímos as conseqüências do quadro teórico delineado nas seções 2.2.2. - 2.2.5. para a presente análise de verbos. Veremos, em primeiro lugar, que nossa análise se fundamenta em modelo de entrada que contempla informações consideradas relevantes em diferentes abordagens do léxico. Em seguida, veremos que o modelo de HELBIG (1992) constitui o ponto de partida de nossa análise. As diferenças entre esse modelo e o que adotamos são levantadas no final da seção.

As diferentes abordagens do léxico das seções 2.1.2. - 2.1.5., em que pesem diferenças fundamentais, convergem mais ou menos para uma entrada lexical com pelo menos as seguintes informações:

1. significado

2. casos semânticos dos argumentos

3. restrições de seleção

4. caracterização sintática dos actantes que realizam argumentos

As divergências se referem, entre outros aspectos, à estrutura da entrada (quantidade de níveis e perspectiva sintática ou semântica), à forma em que as informações de (1) a (4) são especificadas e às categorias utilizadas.

No capítulo 5, detalharemos o modelo subjacente à nossa análise de verbos, que se baseia, essencialmente, na abordagem modular-integrativa de HELBIG (1992). O Quadro V compara os níveis de nosso modelo aos níveis correspondentes do modelo de HELBIG, pelo que se pode constatar que o primeiro é uma simplificação do segundo:

Quadro V - Comparação entre o modelo simplificado e o modelo de HELBIG (1992).

MODELO SIMPLIFICADO

MODELO DE HELBIG (1992)

(i) estrutura componencial (EC) do significado da variante verbal

Níveis 0, 1 e 2

(ii) casos semânticos dos argumentos da EC representados por variáveis

Nível 3

(iii) funções boolianas que expressam a realização semântico-referencial dos argumentos

Nível 4

(iv) grafos que representam a correlação entre casos semânticos e funções sintáticas

Nível 5a

Façamos um levantamento das diferenças entre a abordagem de HELBIG e a nossa. Em primeiro lugar, HELBIG (1992) propõe, como vimos, três níveis para a representação do significado e a valência lógica. O Nível 0 traz a estrutura de predicados elementares. O Nível 1 informa sobre a quantidade de argumentos, e o Nível 2, sobre os traços semânticos inerentes dos verbos. Essa subdivisão é desnecessária. De uma representação do significado como uma estrutura de predicados elementares se podem depreender as informações dos Níveis 1 e 2 de HELBIG (1992). Desse modo, o modelo que adotamos trata desses aspectos em apenas um nível. A esse respeito, subscrevemos abordagens no âmbito da análise componencial como KATZ/FODOR (1963), KATZ (1967, 1971, 1972), BIERWISCH (1969, 1970), BENDIX (1970,1971) e VIEHWEGER et al. (1977).

Em segundo lugar, para HELBIG (1992), o Nível 5 deve especificar tanto as funções sintáticas quanto as categorias sintáticas. No entanto, é possível, em português, para um grande número de verbos, entre os quais se incluem os verbos que analisamos neste trabalho, depreender as categorias das funções.

De fato, para os verbos de (1), subsiste uma relação de implicação entre funções gramaticais e categorias gramaticais. Por exemplo, nos complementos desses lexemas, SUJ e CD são sempre funções de SN. Desse modo, é desnecessário informar, na entrada, que os complementos que exercem as funções SUJ e CD de comprar, roubar, tomar etc. devem realizar-se como SN.

Cremos que relações do tipo F® CG, onde F simboliza uma função gramatical (i. e. função sintática) e CG representa uma categoria gramatical de um complemento (v. seção 2.2.3.), constituem regras default no léxico português. De acordo com SCHWARZE/WUNDERLICH (1985:14), regras default são "regras que fazem uma previsão, quando nada mais é especificado" ("Regeln, die eine Vorhersage machen, wenn nichts anderes spezifiziert ist"). Nas entradas lexicais do português, quando não se especifica que uma função sintática de um complemento é representada por uma categoria determinada, então essa representação deve ser a prevista nas regras default. É o caso dos complementos dos verbos que constituem o objeto desta dissertação. Uma entrada do verbo surpreender, porém, deve informar que a função SUJ pode ser representada por S (cf. (10)), do mesmo modo que uma entrada de impedir para a função CD (cf. (11)):

(10) Não me surpreende [S que Pedro tenha sido demitido].

(11) José impediu [S que Pedro continuasse na firma].

Em face dessas considerações, e em conformidade com o posicionamento de STEINITZ (1984) sobre a relação entre categorias e funções, julgamos desnecessário registrar as primeiras nas entradas do grupo de verbos de MP, bastando informar as funções sintáticas.

Em terceiro lugar, nosso modelo não contempla a distinção entre actante obrigatório e facultativo, i. e. entre uma valência sintática mínima (quantidade de actantes obrigatórios) e valência sintática máxima (quantidade de actantes obrigatórios e facultativos). Limitamo-nos a essa última. No modelo modular-integrativo, registra-se uma e outra valência. Essa distinção parece relevante (cf. RADFORD, 1988:345, 365; BORBA et al., 1990). Se não a levamos em conta nesta dissertação, foi apenas para diminuir as dificuldades da análise.

Finalmente, a notação preconizada pelo modelo de entrada que fundamenta nossa análise diverge em vários aspectos daquela do modelo de HELBIG (1992). No nosso modelo, utilizamos, na medida do possível, a notação matemática (particularmente da teoria dos conjuntos) para expressar as relações e funções (no sentido matemático desses termos) dos diversos níveis da entrada. Na notação para as estruturas componenciais, utilizamos, essencialmente, as mesmas convenções da sintaxe semântica de VIEHWEGER et al. (1977), fundamentada na lógica predicacional, as quais diferem daquelas adotadas por HELBIG (1992). Cremos que a utilização de uma notação lógico-matemática confere maior rigor a uma descrição do léxico.

 

 

 

2.3. Alguns estudos recentes sobre verbos

Um levantamento exaustivo dos estudos sobre verbos nos últimos anos ultrapassaria os limites desta dissertação [nota 24]. Nos parágrafos seguintes, faz-se um breve levantamento de análises mais recentes de verbos que levam em conta aspectos semânticos e sintáticos.

Em primeiro lugar, arrolamos análises, baseadas na teoria da valência, sobre verbos alemães, e estudos contrastivos dentro do mesmo arcabouço teórico. Em segundo lugar, tratamos dos estudos sintático-semânticos de verbos que conseguimos garimpar em bibliografias do português.

A análise dos aspectos semânticos e sintáticos de verbos é um dos campos mais prolíferos da lingüística de língua alemã. No Quadro VI, são arrolados alguns dos trabalhos desenvolvidos nos últimos anos.

Na lingüística portuguesa, questões relacionadas à descrição de verbos, como por exemplo os casos semânticos e os complementos verbais, são freqüentemente tomadas como objeto de dissertações de mestrado e teses de doutorado (cf. PEREIRA, 1976; BRITO, 1986; DUARTE, 1989; CAVALCANTE, 1996). O mesmo parece que não ocorre, porém, com a construção de entradas para verbos individuais.

De fato, a descrição de verbos em seus aspectos semânticos e sintáticos, sob a perspectiva do léxico, não parece constituir uma das áreas mais exploradas da lingüística de língua portuguesa, ao contrário do que ocorre na lingüística de língua alemã. Abstraindo de abordagens tradicionais como FERNANDES (1987), parecem escassos os estudos dessa natureza. Por um lado, VERDELHO (1994), em seu panorama da lexicografia de língua portuguesa, se refere apenas a dicionários de verbos 'paradigmáticos', mas não 'sintagmáticos'. Nessa última categoria, segundo KÜHN (1989:117), se enquadram os dicionários de valências. Por outro, nas referências bibliográficas de BRITO (1986), LOBATO (1986), SOUZA E SILVA/KOCH (1986), LEMLE (1989), MATEUS et al. (1989), que tratam da complementação verbal, deparamo-nos apenas com 2 títulos explicitamente sobre verbos, a saber os estudos sobre a sintaxe e a semântica de verbos de movimento de ARRAES (1974 apud SOUZA E SILVA/KOCH, 1986) e ALBARRAN (1987 apud MATEUS et al., 1989) [nota 25].

Outros trabalhos que conseguimos compulsar foram DUQUE (1979) e REHFELDT (1980). No primeiro, analisam-se, sob a perspectiva da gramática gerativo-transformacional, os aspectos sintáticos e semânticos da regência de 15 verbos, com base numa amostra da língua literária brasileira. Propõem-se, igualmente, entradas para esses verbos que descrevem, para cada unidade lexical, os marcadores semânticos, os traços de subcategorização estrita e as restrições de seleção.

REHFELDT (1980) trata da polissemia e dos campos semânticos em que se enquadram 82 verbos de movimento do português. A análise, que se baseia principalmente em ocorrências extraídas de jornais, leva em conta a estrutura componencial dos significados e os casos semânticos. Não são descritos, porém, os significados individuais dos verbos nem as respectivas molduras sintáticas e casuais nem as restrições de seleção.

Em conclusão, a investigação sobre as propriedades sintáticas e semânticas de verbos individuais e a construção de entradas para verbos que incluam esses aspectos constituem uma área extremamente desenvolvida na lingüística alemã. No Brasil e em Portugal, contudo, a descrição de verbos nesses moldes parece quase inexplorada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quadro VI - Descrições semântico-sintáticas de verbos na lingüística de língua alemã.

GRUPO DE VERBOS

LÍNGUA(S)

AUTOR

verbos dicendi

alemão e polonês

ZIEBART 1979

verbos do grupo "ver"

alemão

TOIMBEKOWA 1980

verbos de transporte

alemão e espanhol

WOTJAK 1981

verbos de deslocamento orientado

alemão e mongol

NAGY 1983

verbos estativos e de deslocamento

alemão

LAPINSKAS 1984

verbos do deslocamento humano ativo

alemão e tcheco

RAJCHARTOVA 1987

verbos do grupo "tomar" denotativos de 'disponibilidade' e de' mudança de posse'

alemão e eslovaco

BITTER 1990 [nota 26]

verbos de mudança de disponibilidade e de posse

alemão

BITTER 1991

verbos do grupo "comprar"

alemão

BITTER 1992

verbos derivados por prefixação

alemão

VOIGT 1992

verbos aestimandi

alemão

GOLONKA 1997

verbos de exortação

alemão e espanhol

MADROÑAL em preparo [nota 27]

 

2.4. Esboço crítico da investigação sobre verbos do português

Nesta seção tratamos criticamente, em primeiro lugar, de BORBA et al. (1990), que, entre centenas de outros verbos, descrevem pelo menos os principais lexemas integrantes do campo léxico-semântico 'verbos de mudança de posse'. Em seguida, levantamos restrições a DUQUE (1979) e REHFELDT (1980), trabalhos referidos na seção anterior.

O único estudo sobre verbos de mudança de posse em português é, segundo parece, BORBA et al. (1990). Não se trata, porém, de uma descrição do componente lexical, mas de um dicionário que incorpora aspectos do léxico. A orientação desse trabalho não é meramente descritiva, como convém a uma descrição do léxico, mas também normativa (cf. BORBA et al., 1990:1363). Outro aspecto em que BORBA et al. (1990) se distanciam da perspectiva do léxico é na informação sobre o significado, que ocorre, fundamentalmente, sob a forma de paráfrases na língua-objeto (por exemplo, um dos sentidos de adquirir é parafraseado como "obter por compra") e sinônimos (por exemplo, um dos sentidos de furtar é definido como "apoderar-se de, roubar"), nos moldes da lexicografia tradicional. Embora considerada, aparentemente, com simpatia por BOLINGER (1965:565-566), a representação do significado de uma unidade lexical sob a forma de um ou mais sinônimos (ou quase sinônimos) não é respaldada pelas principais abordagens teóricas em semântica lexical, as quais prescrevem ou uma representação em termos de componentes (ou traços) semânticos (KATZ/FODOR, 1963; KATZ, 1967, 1971, 1972; BIERWISCH, 1969,1970; BONDZIO, 1971; BENDIX, 1970, 1971; NIDA, 1975; VIEHWEGER et al., 1977; PERES, 1984; WOTJAK, 1984; HELBIG, 1992; ROSA, 1997) ou em termos de postulados semânticos (HURFORD/HEASLEY, 1983). A explicação do significado por meio de paráfrases na língua-objeto, conquanto constitua procedimento válido num dicionário [nota 28], não é admissível numa descrição do léxico, que deve utilizar uma metalíngua (cf. LANG, 1983 apud HELBIG, 1992:151 e HELBIG, 1992:172).

Em cerca de 6000 verbetes, BORBA et al. (1990) descrevem não somente as molduras sintáticas (funções e/ou categorias gramaticais dos argumentos) e as molduras semânticas (casos semânticos) das diferentes variantes verbais, mas também as respectivas restrições de seleção e estatuto sintático-semântico. O ponto de partida principal da descrição é um corpus compreensivo da língua escrita, que abrange ocorrências dos verbos extraídas das literaturas romanesca, dramática, jornalística, técnica etc., no período de 1950 a 1981.

As entradas de DUQUE (1979) ressentem-se de que não são contemplados os casos semânticos, informação lexical considerada indispensável nas principais abordagens teóricas sobre o léxico contemporâneas. REHFELDT (1980), por outro lado, não chega a propor entradas lexicais para os verbos analisados.

Em conclusão, cremos que se pode qualificar de lacunar o estado da investigação sobre verbos do português sob a perspectiva do léxico. Que se trata de uma área extremamente relevante da lingüística descritiva é evidenciado pela quantidade de estudos desenvolvidos na Alemanha nos últimos anos.

Inexistem, aparentemente, descrições semântico-sintáticas de verbos de mudança de posse sob a perspectiva do léxico [nota 29]. Uma excelente descrição sob a perspectiva do dicionário, e que leva em conta aspectos do léxico, é, no entanto, oferecida por BORBA et al. (1990). Essa obra descreve, de fato, o significado, a valência sintática e a valência semântica de todos (ou quase todos) os verbos de mudança de posse do português do Brasil. Na quantidade de verbetes e na abrangência dos mesmos, avantaja-se sobre a mais compreensiva descrição de verbos realizada no âmbito da teoria da valência, que é o dicionário Verben in Feldern de SCHUMACHER (Berlin/New York, 1986) (apud HELBIG, 1992:171-172 e STORRER, 1992:17-18).

Como vimos, BORBA et al. (1990) não analisam, porém, o significado em componentes ou postulados semânticos. Na informação sobre o significado, esse trabalho não faz distinção entre língua-objeto e metalíngua (distinção essa, de resto, não relevante em um dicionário), como condiz a uma descrição do léxico. Outra limitação de BORBA et al. (1990) é que esse trabalho não leva em conta dados da língua escrita posteriores a 1981. Finalmente, em BORBA et al. (1990) o aspecto descritivo, que, exclusivamente, importa ao léxico enquanto modelo de componente da gramática, é prejudicado pela orientação prescritivista.

 

NOTAS

3 DIK, S. (1978): Functional Grammar. Amsterdã: North-Holland.

4 CHOMSKY, N. (1965). Aspects of the Theory of Syntax. MIT, Cambridge (Mass.).

5 BRESNAN, J. (1980): Polyadicity: Part I of a Theory of Lexical Rules and Representations. In: HOEKSTRA et al. (eds.): Lexical grammar. Dordrecht. BRESNAN, J. (1981): An Approach to Universal Grammar and the Mental Representation of Language. Cognition 1-3. Paris/Den Haag.

6 JACKENDOFF, R. (1982): Semantics and Cognition. (Preprint Version)

7 HEIDOLPH, K. E. (1984): Semantische Rollen als Funktionen von Argumenten in semantischen Strukturen (em preparo).

8 Sobre a relevância da gramática de dependência para a lingüística aplicada, em especial para análises confrontativas interlingüísticas e o ensino de línguas, v. TARVAINEN (1983), RALL et al. (1985), SCHREIBER et al. (1987), HERINGER (1989), FISCHER (1990), BRONS-ALBERT (1990). Para a relevância da teoria da valência para o ensino do português, v. HOYOS et al. (1997).

9 Sobre a noção de valência e os diferentes tipos de valência, v. HELBIG (1991, 1992).

10 Sobre o modelo que fundamenta HELBIG/SCHENKEL (1969), veja-se também HELBIG (1971).

11 KADE, O. (1979): Paradigmatische und syntagmatische Bedeutungsanalysen beim russisch-deutschen Sprachvergleich. In: LS/ZISW/A/57. Berlin.

12 O modelo da valência de HELBIG (1992), que denominamos modular-integrativo, é conhecido como modelo de 6 níveis, denominação, ao nosso ver, incorreta, uma vez que comporta 7 níveis. HELBIG refere-se a descrições lexicográficas de campos verbais com base em seu modelo, levadas a efeito por pesquisadores do Departamento de Lingüística do Instituto Herder da Universidade de Leipzig, como descrições 'de forma modular-integrativa' (HELBIG, 1992:2). Cf. também HELBIG (1992:65), em que o autor fala da necessidade de um modelo complexo que contemple os diversos aspectos da valência (inclusive pragmáticos), composto de "diferentes níveis que interagem de forma modular, i.e. não são nem dependentes nem independentes, mas interdependentes e, por isso, co-atuam como módulos relativamente autônomos na produção e interpretação de enunciados lingüísticos".

13 SCHUMACHER, H. (org.) (1986): Verben in Feldern. Valenzwörterbuch zur Syntax und Semantik deutscher Verben. Berlin/New York.

14 "Dieser Weg von der Semantik zur Syntax (und die damit verbundene "Aktantifizierung" der Argumente) entspricht einer generellen wissenschaftsgeschichtlichen Entwicklung und einer "Umkehr" des Blickes auch in anderen Bereichen der Grammatik"(HELBIG, 1983:138).

15 LANG, E. (1983): Lexikon als Modellkomponente und Wörterbuch als lexikographisches Produkt - ein Vergleich als Orientierungshilfe. In: LS / ZISW / A / 109. Berlin.

16 Para HELBIG (1983a), ao que parece, a cada sentido de um verbo corresponde um predicado (e uma entrada) diferente. De fato, ele ressalta que a estrutura lógica a R atribuída ao predicado dorm- (schlaf-) refere-se ao sentido "descansar" ("ruhen").

17 "semantische Merkmalanalyse in der Tradition der Versuche, die Bedeutung einer infiniten Menge Wörtern mit Hilfe der Kombination von semantischen Merkmalen aus einem finiten Vokabular zu beschreiben" (HELBIG, 1983:140).

18 "semantische Relationen wie z. B. Bedeutungsähnlichkeit und -verschiedenheit, Synonymie, Antonymie, Hyponomie oder Kohyponomie lexikographisch in das Blickfeld zu rücken" (HELBIG, 1983:140).

19 "Funktion, Bündelung, Abstraktion, Syntaktifizierung von Argumenten der semantischen Struktur (...) Nahtstelle, an der und durch die die Einheiten der semantischen Struktur (Argumente) und die Einheiten der syntaktischen Struktur (Satzglieder, Aktanten) miteinander verbunden sind" (HELBIG, 1983:141).

20 V. infra distinção entre 'argumentos' e 'actantes'.

21 O que HELBIG (1992) designa por 'advérbio' é denominado 'complemento circunstancial' por FERREIRA (1986) e 'complemento relativo' por FERNANDES (1987). Trata-se de sintagmas adverbiais ou preposicionados que funcionam como complementos (actantes) do verbo.

22 HELBIG (1992:166) afirma que o número de argumentos pode ser igual ou maior do que o número de actantes. Segundo HELBIG, um exemplo de discrepância entre o número de argumentos e o de actantes é patenteado pelo verbo mentir em alemão (lügen). Nesse verbo alemão, o argumento que exerce a função DESTINATÁRIO não pode realizar-se na frase; não há, portanto, actante que represente esse caso, o que resulta no número menor de actantes do que o número de argumentos. Em português é possível, contudo, a realização de DESTINATÁRIO: 'Clarissa mentiu para mim'. Vale ressaltar que a língua alemã dispõe de outros verbos que expressam "mentir" que permitem a actancialização da referida função semântica.

23 Não excluímos a possibilidade de que ocorram, na língua falada, as frases asteriscadas no Quadro IV. Nesse caso, o bloqueio deixaria de existir.

24 Para uma retrospectiva abrangente das análises de verbos baseadas na teoria da valência, consultem-se STORRER (1992) e HELBIG (1992). Em BUSSE/VILELA (1986) há referências a análises de verbos franceses e ingleses.

25 ARRAES, T. C. (1974): A Estrutura Sintático-Semântica dos Verbos de Movimento em Português. São Paulo, FFLCH/USP. Tese de doutorado. ALBARRAN, M. J. (1987): Aspectos sintático-semânticos dos verbos locativos no Português oral de Maputo. Universidade de Lisboa: Faculdade de Letras. Dissertação de mestrado.

26 ZIEBART, H. (1979): Zur syntaktischen Valenz und Distributions ausgewählter deutscher und polnischer verba dicendi. Versuch eines Vergleichs. Diss. A. Leipzig (hekt.). TOIMBEKOWA, A. K. (1980): Das Verhältnis von Syntax und Semantik ausgewählter Verben der "Sehen"-Gruppe im Deutschen. Diss. A. Leipzig (hekt.). WOTJAK, B. (1981): Untersuchungen zu deutschen Verben des Befördens unter Berücksichtigung ausgewählter spanischer Äquivalente. Diss. A. Leipzig. LAPINSKAS, S. (1984): Zu den Beziehungen zwischen Argument, Kasusrolle und Aktant am Beispiel der Realisierung des Lokativs (bei ausgewählten deutschen Verben des Zustands und Fortbewegung). Diss. A. Leipzig (hekt.). RAJCHARTOVA, M. (1987): Analyse der präfigierten und zusammengesetzten Verben der aktiven menschlichen Fortbewegung am Beispiel ausgewählter deutscher Verben und ihrer tschechischen Entsprechungen. Diss. A. Leipzig (hekt.). BITTER (1990): Untersuchungen zu deutschen Verfügungs-/Besitzwechselverben des Nehmens unter Berücksichtigung ihrer slowakischen Äquivalente. Diss. A. Leipzig (hekt.). Todos esses trabalhos são teses de doutorado inéditas citadas por HELBIG (1992).

27 Comunicação pessoal em Freiburg, em 1993, e por carta, em 14.3.95. O trabalho referido é uma tese de doutorado desenvolvida na Universidade de Havana, com co-orientação de Wotjak, da Universidade de Leipzig.

28 SCHUMACHER (1986 apud HELBIG, 1992:172, STORRER, 1992:394) utiliza, na descrição do significado de verbos, paráfrases na língua-objeto. Essas paráfrases, porém, relacionam-se estreitamente com uma representação em termos de componentes semânticos. Por exemplo, o significado de presentear é descrito da seguinte maneira: "a causa intencionalmente e sem uma compensação que x passe a possuir z e que a passe a não mais possuir z" (apud STORRER, 1992:394).

29 A Profa. Dra. Maria Helena de Moura Neves, da UNESP (Araraquara), co-autora do Dicionário Gramatical de Verbos do Português Contemporâneo do Brasil (Borba et al., 1990), talvez a maior especialista em valência no país, assegurou, em comunicação pessoal no 2º semestre de 1994, desconhecer trabalho sobre verbos de mudança de posse nos moldes do modelo de HELBIG (1983, 1992).

 

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