Férias maluca, 32 dias a bordo de um fusca!
|
|
.
|
Inicialmente, a fim de detectar
possíveis problemas no sistema mecânico ou elétrico no veículo "Fusca
Californiano" visando esta "curta" viagem, constatei a
necessidade de modificações para melhorar a segurança e o conforto do veículo.
Por exemplo: instalação de freios a disco na dianteira
(era tambor), pneus dianteiros eram 205X60X15, foram trocados por 195X60X15. Troquei o
rádio AM-FM por um toca CDs. e também mandei fazer uma mala especial no capo, com quatro
repartições e uma outra pequena dentro do estepe "virado".
Toda essa preocupação com o espaço das bagagens era para
melhor conforto da minha família, "eu, minha esposa e três filhos".
No interior do veiculo, com bancos de veludo verde da marca Recaro, o assento e o encosto
traseiro foram reclinados e recuados em 20 cm.
Desta forma, eliminando o bagagito traseiro, ainda foi
elaborado na parte inferior do painel de instrumentos, um bagagito de aço inox, este para
levar apenas o essencial: filmadora, máquina fotográfica, celular, maleta de primeiros
socorros, uma caixa de ferramentas com varias peças reservas (bomba de gasolina, correia,
cabo de acelerador e embreagem, bobina, jogo de cabos e velas, tampa de distribuidor) e no
porta-luvas, agendas, canetas e o mais importante, o Mapa do Brasil.
A preparação da aventura não foi apenas do
veículo, que durou aproximadamente 30 dias, mas também do "motorista", pois
fiz um condicionamento específico, já que não é comum viajar nove mil quilômetros,
principalmente dentro de um fusca. |
Diz um ditado popular chinês que "...uma caminhada de mil quilômetros
inicia-se com o primeiro passo...Como a nossa meta era, a
princípio, de oito mil quilômetros rumo ao nordeste brasileiro, o nosso primeiro
passo foi de mil quilômetros até Curitiba - PR.
Chegado o grande dia, preparamos a bagagem, abasteci
o veiculo, troquei o óleo comum por um de sete mil quilômetros e partimos no dia 23 de
janeiro de 1997, às 5:00h, da cidade de Suzano - SP, tentando concretizar um sonho de dez
anos, pois a nossa última viagem foi em janeiro de 1987. No volante do meu fusca,
afivelamos os cintos de segurança retrateis e partimos para a viagem.
Subimos a Anhanguera em direção à cidade de
Franca-SP...
Almoçamos na casa de meus tios e seguimos a viagem
passando por Uberaba e Uberlândia, Minas Gerais, rumo a Caldas Novas-GO.
Nesse primeiro dia de viagem, fomos parados em
quatro barreiras de policiais, que quando tomavam conhecimento da viagem planejada a bordo
daquele fusca com portas suicidas e do fato de apresentar-me como diretor do fusca clube,
amigavelmente os policiais me orientavam a sobre o melhor percurso, ou ainda, alertavam
para os perigos da pista adiante ou mesmo a rodovia de menor distância a fim de
"cortar caminho".
Após sermos abordados por policiais estaduais e
federais durante 30 dias, foi impossível não ter feito grandes amizades com esses
profissionais que muito me ajudaram, como por exemplo, quando o meu fusca foi detido no
quartel da policia rodoviária de Brasília-DF, e liberado após apresentar o laudo do
IPT-Instituto de Pesquisas Tecnológicas ao primeiro tenente Alessandro G. V. B. da Silva,
ao qual envio minhas cordiais saudações.
Curiosidade desse dia 23: quando eu olhava para o
velocímetro que completava os primeiros mil quilômetros de viagem, atropelei um anu
preto, pássaro com asas e calda longas.
Saindo do hotel de Caldas Novas às l3h, sendo
observado por vários curiosos, pois onde parávamos o fusca era a atração do momento,
eu tinha que dar informações a respeito do carro, se era importado, quem fez, quanto
valia, o telefone do fusca clube, etc. |
Na foto ao lado, a linda e histórica
cidade de Goiás Velho-GO |
|
Chegamos a
Goiânia, na casa de amigos, onde em todas as regiões fomos a fazendas comer pamonhas,
churrasco com mandioca, arroz com pequi, frutas regionais, pescar lambari, visitar
Trindade, "Cidade Católica", Goiás Velha "antiga Capital de GO" e
conhecemos a casa da poetisa Cora Coralina. Saudamos os grandes amigos de Goiás e
aceleramos rumo a Brasília, com uma parada em Anápolis "Base Aérea dos aviões
Mirrage", mas chovia muito e não foi possível a visita.
Dormimos na casa de primos, em Brasília, para que
no outro dia pudéssemos visitar a loja de Nelson Piquet e fotografar seu fusca modelo
californiano, com motor 3.0 da Porsche.
Queríamos conhece-lo pessoalmente, mas não foi
possível pois houve desencontros. |
Na foto ao lado, meu fusca,
tendo ao fundo o trator
que primeiro desmatou
a floresta goiana para
a construção
de Brasilia. |
|
Com a ajuda
dos policiais rodoviários do Distrito Federal, pegamos ótimas estradas para Bom Jesus da
Lapa-BA, cidade católica, à margem do Rio São Francisco, com uma igreja encrostada numa
caverna rochosa. No Norte da Bahia, as estradas são praticamente retas, com grandes
trechos esburacados, onde crianças com suas enxadas tentam tapar os buracos em troca de
moedas, balas, ou bolachas.
Há trechos da rodovia federal onde se roda até 50
km de chão "que é só poeira".
No acostamento desta rodovia, no norte da Bahia,
mulheres com crianças no colo, pedindo esmolas; uma tristeza aquela pobreza, que parecia
que saíramos do Brasil.
Por outro lado, existiam trechos com pequenos
vilarejos prósperos, com suas casinhas brancas, armazéns, igrejas, e velhinhas sentadas
ao sol, vendendo as suas mercadorias (temperos, frutas, queijos, farináceos, etc.).
Antes de chegar na cidade do Senhor do Bonfim-BA,
pegamos um trecho que estava sendo asfaltado e o meu carro foi todo "pintado"
com piche; o fusca teve que ser lavado com óleo diesel em um posto da cidade de
Petrolina-PE.
|
Na
foto ao lado, vista do
Hotel Novo Horizonte em
Bom Jesus da Lapa-BA |
|
Depois de
lavar e encerar o carro, percebi que a roda traseira direita estava com um grande
amassado; como o pneu estava calibrado com 80 libras, revisei o ar e seguimos viagem rumo
a Ouricuri, sertão pernambucano, onde moram alguns parentes, inclusive meu sogro, que é
sitiante da região. Descansamos durante oito dias no sitio de meu sogro, comendo carne de
cabrito, buchada, sarapatel, chupando ciriguela, umbu, acerola, pinha e graviola. No
caminho do sitio muito calor e na estrada que por várias vezes passamos, as pessoas
demonstravam um enorme respeito.
Havia no caminho poças d'água de chuva e numa
dessas passagens, para verificar a profundidade da lama, abri a porta do meu carro, que
para minha surpresa foi alagado, molhando a câmara filmadora que ficou danificada.
Em nosso último dia em Ouricuri, despedindo-nos de
amigos ouvimos um comentário de que no caminho que vai para Fortaleza, na cidade de
Crato-CE, existe um artesão que fabrica robôs que falam e andam, tendo a altura de um
homem e fomos conferir.
Antes, porém, passamos por Exú, cidade magnífica,
com pessoal humilde, de uma simplicidade e companheirismo inigualáveis; no museu Luiz
Gonzaga deixamos um emblema do Fusca Clube do Brasil em memória, como prova de nossa
passagem. |
| Na
foto os "robôs", na cidade de Crato-CE. |
Na foto o "Museu do
Gonzagão",
na cidade de Exú-PE. |
Nossa próxima
parada foi em Juazeiro do Norte-CE, onde eu conheci, além das estátuas de Pe.Cícero,
dois fuscas fabricados por mais um artista cearense, o famoso Carlos Alberto
"Carlinhos", o primeiro fusca, amarelo, estava em fase de acabamento, tendo
motor 2.0, lanternas traseiras, faróis, e pára-choques do Corsa, em fibra, um lindo
carro; o outro, também com motor 2.0, com a frente em fibra do Logus, uma obra de arte
sobre rodas.
Não tivemos a oportunidade do conhecer o artista,
mas apenas suas obras primas.
Nossos parabéns a ele!
A curiosidade desse trecho, sentido Fortaleza, é
que às vezes o fusca era ultrapassado por uma Pajero preta, com um casal e algumas
crianças filmando-nos. Quando a estrada era boa, o meu fusca era mais veloz,
ultrapassando-o.
Ficamos o dia todo assim, ultrapassando e sendo
ultrapassados, não coincidindo da gente almoçar e abastecer no mesmo lugar. Conclusão:
nos encontramos novamente três dias depois, na Praia de Genipabu, Natal-RN. Antes passei
por Fortaleza. Era hora de trocar o óleo e eu tentei localizar algum clube de carros
antigos mas ninguém soube me informar a respeito.
|
Sertão
do Ceará, onde deparamos
com essa kombi adaptada
como moradia. |
Juazeiro do Norte-CE, onde vê-se
ao fundo a famosa estátua do
Padre CíceroRomão Batista |
Entrei no Rio
Grande do Norte, parando em Mossoró-RN, depois Currais Novos-RN, onde nos hospedamos. Da
sacada do hotel, a vista do centro era privilegiada; e atrás de um trio elétrico fomos,
pois era o primeiro dia de carnaval, uma "noite inesquecível".
No dia seguinte almoçamos mocotó e aceleramos rumo
a Natal-RN. Lá fomos conhecer as dunas móveis das praias de Genipabu, onde conheci o
presidente da associação de profissionais de bugues, que nos levou para conhecer toda a
parte bonita de Natal.
Um abraço a toda essa associação pioneira. |
Oasis Genipabu
Dunas-RN. |
|
Começamos a
descer todo o litoral nordestino, passando por João Pessoa e Campina Grande, Paraíba.
Saindo da Paraíba entramos novamente em Pernambuco, para nos hospedar em Santa Cruz do
Capibaribe-PE.
Nessa região, permanecemos mais oito dias, onde
moram algumas belíssimas cunhadas minhas.
Nesse período, conhecemos o artesanato de Caruaru,
a cidade de Nova Jerusalém, onde no maior teatro ao ar livre do mundo se encena a paixão
de Cristo. |
Litoral da Paraiba.
Ao fundo, helicóptero
utilizado para passeios aéreos. |
|
No término do
carnaval, quando o pessoal voltava das praias, seguimos viagem no sentido
Olinda/Recife-PE, Maceio-AL, Aracaju-SE, indo pousar em Alagoinhas-BA, onde assistimos um
casamento de amigos.
A parada seguinte foi no hotel Canto do Mar, na
praia de Guarajuba, Camaçari-BA.
Em um dia chuvoso, seguimos viagem rumo a Salvador,
onde um guia turístico aguardava para nos mostrar os principais pontos turísticos da
cidade. Fizemos a reportagem fotográfica e prosseguimos viagem na balsa
Salvador-Itaparica.
Próxima parada: Ilhéus-BA.
No abastecimento e lavagem do meu fusca, alem das
picotadas provenientes de pedras lançadas pelos pneus de caminhões, percebi outro
amassado na frente do veiculo e na mesma roda traseira direita. Como ele não apresentava
nenhum defeito de dirigibilidade, tendo a aceleração perfeita no motor 1.600,
delicadamente decorado com partes cromadas, prosseguimos viagem.
Depois de um banho de mar, almoçamos e o próximo
destino era Porto Seguro-BA, onde fomos conhecer o marco histórico do Descobrimento do
Brasil e Santa Cruz de Cabrália-BA onde foi celebrada a primeira missa no nosso país.
Compramos alguns artesanatos indígenas, conhecemos a passarela do álcool, onde jantamos
e pernoitamos no hotel Coimbra.
Saímos de Porto Seguro ao raiar do dia, rumo a
Vitoria-ES.
No caminho, nos deparamos com carros de surfistas,
com placas do Rio de Janeiro, quando por um certo tempo saí da rotina de dirigir com
responsabilidade e por alguns minutos fizemos um "racha" ou um "pega"
como dizem eles; meu fusca atingiu 180 km/h. e os surfistas não acreditavam no que
estavam vendo, um fusca naquela velocidade... É que por causa do teto rebaixado, ele
possui uma aerodinâmica incomum e também depois de ultrapassar dez mil quilômetros, o
carro inspirava muita confiança.
|
Cidade
de Cabrália-BA.
Local onde celebrada a primeira
missa no Brasil. |
Praça
Castro Alves (a praça do povo),
em Salvador-BA, vendo-se ao fundo
a linda catedral ali existente |
Chegamos em
Vitoria-ES, às 22h. e nos hospedamos no hotel Ilha do Boi, jantamos no quarto e às 2h da
manhã ainda tomávamos banho de piscina. Neste dia revelei na recepção do hotel que era
Diretor do Fusca Clube e que estava de férias - mas na verdade estava a trabalho pelo
Clube fotografando os principais pontos turísticos do país com um dos principais fuscas
da associação - e com isso obtive um desconto extra no hotel.
Tomamos o breakfast e seguimos viagem para o Rio de
Janeiro. |
| Hotel Ilha do Boi/ES |
|
Já na cidade
do Rio tentamos nos hospedar no Copacabana Palace mas não havia vagas.
Fomos então ao Othon Palace, assistimos a shows de
drag-queens, na praia, em uma noite de domingo. Segunda-feira, dia 25 de fevereiro de
1997, tomamos o último banho de mar e seguimos viagem para casa. |
| Rio de Janeiro-RJ. |
|
Fizemos uma
parada em Aparecida do Norte-SP, onde almoçamos e agradecemos à Nossa Senhora Aparecida
pela magnífica viagem, sem nenhum acidente, onde o nosso querido fusca nos proporcionou
muitas aventuras e alegrias. |
Cidade de Aparecida-SP, tendo ao
fundo a belíssima catedral de
Nossa Senhora Aparecida. |
|
Voltamos
ilesos para casa.
O fusca, pobrezinho, passou por poucas e boas:
piche, pó, lama, chuva, calor, sereno, atoleiro, mas agüentou firme, aliás, como já
esperávamos.
Durante 32 dias, percorremos 12.886 km
(só prá ter uma idéia, isso é quase a distância aérea entre o Brasil e a
Índia), com 63 abastecimentos em quatorze estados brasileiros, modéstia à
parte, devido à minha habilidade e á grande resistência do meu fusca.
Ah... se meu fusca falasse... |