O TEMPO DA EJACULAÇÃO

 
Ejaculação precoce é o termo empregado por especialistas para se referir ao homem que, na relação sexual, emite esperma e chega ao orgasmo repetitidamente antes de sua parceira. É o homem que sistematicamente goza antes da hora. Quem houve essa definição invariavelmente pergunta: mas qual é a hora?
A definição se apóia em uma medida de tempo. Trata-se, na verdade, de uma expectativa de tempo. É como um trem que sai de uma estação com velocidade conhecida e não enfrenta contratempos no percurso; nese caso, ele deverá chegar na outra estação no horário esperado.
Na relação sexual, a estação de partida é a excitação; a de chegada, o momento da ejaculação.
No homem sadio, em que nada tiver atrapalhado o desenvolvimento emocional e sexual, a ejaculação é sempre acompanhada do orgasmo. Na verdade, a ejaculação é parte integrante do orgasmo. Orgasmo sem ejaculação, ou vice versa, só ocorrem em sérios distúrbios emocionais ou neurológicos; ejaculação sem orgasmo pode, eventualmente, ocorrer em quem tem ejaculação precoce.
Entre o começo da excitação e o final da relação sexual pela ejaculação há uma expectativa de tempo. Esse tempo não é fixo e tem razoável margem de flutuação. O que faz o tempo ser aprovado ou reprovado como satisfatório?
Quem determina se o trem chegou na hora são o condutor, os usuários e o fiscal da estação. Quem determina se o tempo entre o início da excitação e a ejaculação foi apropriado é o homem, a parceira e, quando for o caso, alguém neutro como o especialista ou o terapeuta.
Via de regra o homem está em melhor posição de julgar se o tempo foi apropriado ou não. Talvez no começo lhe faltem parâmetros de comparação mas ao longo de um curto espaço de tempo as sucessivas abreviações do orgasmo da parceira acendem-lhe a desconfiança que algo está errado. Em pouco tempo ele deconfiará seriamente que tem ejaculação precoce.
Todo homem tem cá e lá alguns episódios de brevidade da ejaculação. Isso é normal. Mas só sofre da síndrome da ejaculação precoce aquele que repetidas vezes ouve no final da relação uma voz interior que lhe diz: foi rápido de novo!
Ejacular rapidamente vez por outra é mecanismo de proteção; ejacular de forma rápida, sistematicamente, é falha do sistema.
Mas o que exatamente faz a ejaculação ter um tempo apropriado ou ser precoce?
Quando tudo tiver dado certo durante o desenvolvimento corporal e emocional, o tempo para ejacular será apropriado by default. Isso quer dizer que nenhum esforço precisará ser posto a serviço de fazer com que a ejaculação venha no tempo apropriado. Ela virá sozinha.
Quem é acometido da síndrome de ejaculação precoce fatalmente procurará tentar controlar o tempo da ejaculação. Isso raramente dá certo e, na mairia das vezes, resulta em desastre. Tentar prolongar o tempo da ejaculação pode causar problemas. Isso ocorre porque o prolongamento da ejaculação por imposição interfere com a excitação, o que por sua vez pode (1) reduzir a rigidez da ereção ou (2) permitir o próprio escape da ejaculação. Ou seja, ao tentar evitar aquilo, acontece justamente aquilo. A ejaculação só pode ser prolongada mediante o prolongamento da excitação, e não por imposição. Se o processo de construção da excitação estiver em seu andamento normal, a ejaculação terá seu tempo prolongado by default e tudo estará bem.
Quando a excitação sofre oscilações, oscilam também a rigidez da ereção e a prontidão da ejaculação. Como resultado, pode haver ejaculação com o pênis em estado de rigidez menor do que o ótimo ou uma ejaculação sem querer. Em ambos os casos, a satisfação é incompleta e, na maioria das vezes, muito desagradável.
A excitação sexual do homem que não intervém sobre seu andamento é terminada por um de dois mecanismos. Um, natural, é o orgasmo com ejaculação, seguido da sensação de plenitude e da percepção que o clímax foi recíproco. O outro, indesejável, é a interposição de um circuito de segurança que interrompe a excitação pela ejaculação rápida.
Ao impor a vontade sobre a excitação, o resultado é a queda de sua energia motriz. Segue-se a rigidez incompleta do pênis ou o próprio escape da ejaculação que estava tentando ser evitada.
Está criado o que se constitui no dilema do homem com a síndrome da ejaculação precoce: se ficar o bicho come, se correr ele pega. Deixando a excitação livre a ejaculação vem célere; ficando de olho nela, ela não vai longe.
A saída do impasse está, primeiro, em compreendê-lo. Mas uma coisa é compreender o que se passa, usando o raciocínio, a linguagem e a memória; outra é tentar influenciar os circuitos cerebrais que controlam a excitação e abrem as comportas para o momento (adequado ou precoce) da ejaculação.
Os especialistas sabem que esses dois sistemas são separados porque os mecanismos de controle neurológico de eventos que envolvem vísceras ou glândulas independem da vontade, isto é, são involuntários.
É algo semelhante a dois compartimentos que desempenham funções diferentes dentro de um microcomputador. No mundo da informática cunhou-se um termo para designar a barreira entre compartimentos de funções diferentes: a interface.
Há, da mesma forma, uma interface na sexualidade do homem que separa a manipulação de idéias e conceitos sobre a relação sexual e o estado de excitação que a reveste. Por definição, então, a função de um compartimento não poderá ser alterado através da linguagem do outro. A linguagem de um compartimento só funciona para si próprio. Portanto, ter idéias sobre excitação é possivel, mas utilizá-las para modificar seu andamento, não.

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Martin R. Pörtner
portner@uol.com.br