Aluisio amou a história
de seu povo

                                 José Carlos Fineis


aluisio de almeida (38024 bytes)

    Coube a um filho adotivo a difícil tarefa de contar, e bem contar, mais de três séculos de história sorocabana. O padre Luiz Castanho de Almeida, ou Aluisio de Almeida, como assinava seus escritos, foi um pesquisador incansável que tornou compreensível não apenas a história, mas também a alma e a cultura da gente de Sorocaba.

    Infância - Nascido em Guareí em 1904, um dos cinco filhos de Anibal Castanho de Almeida, líder político local, e da professora pública primária Ana Cândida Rolim, o pequeno Luiz fez o curso primário na própria Guareí e, em 1917, foi enviado com seu segundo irmão, Acácio, para o Ginásio Diocesano de Botucatu, um internato que funcionava anexo ao Seminário Menor.

    No ginásio, o jovem viu despertar a vocação sacerdotal. Ingressou no seminário em 1918; em 1919, iniciou o curso de Filosofia e, em 1920, recebeu a batina. Como aluno do Seminário Maior, lecionou latim aos internos do Seminário Menor. Em 1924, tendo concluído os estudos para o sacerdócio, aguardava a idade mínima para ordenar-se, quando foi convocado para secretariar a recém-criada Diocese de Sorocaba, acumulando essa função às de secretário particular do bispo.

    No dia 8 de maio de 1927, na Catedral de Sorocaba, o jovem Luiz foi ordenado sacerdote, e no dia seguinte, na mesma igreja, celebrou sua primeira missa. Entre 1929 e 1930, foi padre coadjutor em Itararé e Itapetininga, até que assumiu sua própria paróquia, em sua pequena Guareí, onde ficaria até 1933. É de 1930 seu primeiro livro, "Gema Galgani", biografia de uma religiosa italiana falecida em 1903.

    Em Sorocaba - Em 1933, o padre Castanho foi transferido para Sorocaba, onde iria residir pelo resto da vida. Foi coadjutor da Catedral e logo assumiu a paróquia de Bom Jesus dos Aflitos, no Além Ponte. Nesse bairro, adquiriu um sobrado, para o qual levou a família.

    Uma grave doença (esclerose dos nervos) começou a se manifestar, chegando ao ponto de obrigá-lo a deixar o paroquiato, em 1937. Permaneceu, porém, como auxiliar na mesma paróquia até 1939, e em 1940 foi designado reitor do recém-criado Seminário Menor Diocesano "São Carlos Borromeu". Finalmente, em 1944, sem condições físicas de prosseguir, interrompeu definitivamente as atividades públicas de sacerdote.

    Mesmo assim, continuou usando batina e celebrando a missa todos os dias, em sua casa do Além Ponte. Recebia encomendas de missas, confessava os fiéis e dava bênçãos. Era querido dos vizinhos e das crianças.

    A doença foi cruel com o padre. Além de perder a audição, ele falava, lia e se movimentava com grande dificuldade. Mas o tremor das mãos não o impediu de escrever - um hábito adquirido na juventude. E contava com a ajuda de amigos para passar a limpo seus artigos, revisar originais ou saber das novidades que não conseguia ler nas letras miúdas nos jornais.

    A pesquisa - O gosto pela pesquisa surgiu por volta de 1939. Doente, o padre passava horas nos arquivos da Cúria Diocesana, da Prefeitura e dos cartórios, vasculhando informações sobre a cidade. Apesar das limitações físicas, viajou bastante para pesquisar em institutos de São Paulo e do Rio. Sua temática era variada, mostrando um especial interesse pelo folclore e pela história - e dentro desta, com ênfase especial, a história de Sorocaba.

    Sem enfrentar dificuldades financeiras, tinha dinheiro bastante para, na falta de editora, custear suas próprias edições. Colaborou incansavelmente com a imprensa local, através de artigos curtos, sobre temas específicos, enquanto compunha sua extensa bibliografia. Segundo levantamento do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba, foram 22 livros editados, em sua maioria sobre aspectos da história local.

    Entre os títulos, encontram-se: "A Revolução Liberal de 1842" (1944), "História de Sorocaba" (1951), "História de Sorocaba para Crianças" (1967), "Vida e Morte do Tropeiro" (1971), "Vida Quotidiana da Capitania de São Paulo - 1722/1822" (1975).

    O pseudônimo Aluisio de Almeida surgiu em 1938. Com ele, o padre (designado Monsenhor Camareiro Secreto em 1962) iria ganhar renome nacional, tendo seus trabalhos citados por autores como Antônio Cândido, Gilberto Freyre, Luiz da Câmara Cascudo, Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Hollanda, entre outros.

 

    Herança - Fora da literatura, o padre Castanho lutou pela preservação da memória sorocabana. O Museu Histórico Sorocabano foi criado por sugestão de um artigo seu, publicado em 1944. Dez anos depois, nas festividades do terceiro centenário de Sorocaba, o padre fundou o Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico, que passou a funcionar na sua casa - e do qual viria a ser patrono perpétuo.

    Com bom trânsito no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Luiz Castanho de Almeida chegava a fotografar prédios antigos de Sorocaba, providenciando a documentação para que fossem tombados.

    Toda a atividade não era impedimento para que atendesse pacientemente estudantes e pesquisadores, que o procuravam quase que diariamente em sua casa. Gostava destes contatos, assim como gostava de sentar-se ao portão, olhando o movimento da rua.

    Sua casa, na rua Ruy Barbosa, 84, existe até hoje. É a "Casa Aluisio de Almeida", onde funciona um pequeno museu com livros, escritos, fotos e pertences do padre. A casa serve também de sede para o Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba, fundado por Castanho, e para o Museu da Imagem e do Som.

    Luiz Castanho de Almeida faleceu no dia 28 de fevereiro de 1981, depois de um longo período na cama. A missão estava cumprida: havia iluminado três séculos de história. E, apesar de ter deixado inúmeros discípulos esforçados entre seus muitos amigos e colaboradores, ainda não encontrou, nesta seara, um sucessor.

 

    Os dados desta pequena biografia foram obtidos no livro "Mons. Castanho/Aluisio de Almeida", de Arruda Dantas (Ed. Pannartz, 1985). Foto: acervo do jornal "Cruzeiro do Sul".